São Mateus nasceu no século XVI, em meio aos conflitos entre portugueses e povos indígenas da região. A vila consolidou-se por uma economia agrícola assentada na farinha de mandioca, na cana-de-açúcar, nos cereais e na exploração de madeira — produção escoada por via fluvial e marítima a partir do porto, cuja estrutura remonta ao final do século XVII.
Foi uma economia construída sobre o trabalho escravizado. Diante do cais funcionava a praça onde se realizavam as transações locais, inclusive o comércio de pessoas escravizadas, que ali ficavam presas. Essa camada da memória — a chegada e a venda de africanos escravizados pelo porto — é hoje reconhecida como o eixo mais denso e mais delicado do valor patrimonial do Sítio. Na reunião interinstitucional de 1º de julho de 2026, registrou-se que o Porto de São Mateus é apontado como o último porto brasileiro a receber pessoas escravizadas — fundamento do procedimento de reexame do acautelamento nacional em curso, e o que aproxima São Mateus, em ambição, de experiências como o Cais do Valongo, no Rio de Janeiro.
A prosperidade do comércio portuário produziu uma aristocracia local que trouxe arquitetos portugueses para edificar os casarões. Entre 1840 e 1870 ergueu-se o casario que ainda hoje define a paisagem: sobrados estreitos e profundos, herdeiros diretos da tipologia portuguesa, com uso comercial no pavimento térreo e residencial nos superiores. Em 1848, no auge das atividades marítimo-fluviais, a vila foi elevada à condição de cidade.
O declínio veio com a estrada. A partir de 1938, com a inauguração da ligação rodoviária entre São Mateus e Linhares, as atividades econômicas do porto perderam sentido e o conjunto entrou em longo processo de esvaziamento — que o tombamento estadual de 1976 não bastou para reverter.
O que restou é um conjunto de rara integridade arquitetônica e de fragilidade material extrema: edificações em planície de inundação do rio Cricaré, com solos mal drenados e nível freático elevado, marcadas por infiltrações, umidade ascendente, vegetação invasora e instalações elétricas em desacordo com as normas técnicas. Recuperá-lo não é apenas uma obra: é a devolução de um espaço público à cidade.
Ficha técnica
| Localização | Largo do Chafariz (Praça Graciano Neves), Bairro Porto — São Mateus/ES |
| Tombamento | Estadual — Resolução CEC nº 01/1976 |
| Registro | Livro do Tombo Histórico, inscrições nº 1 a 21, fls. 2 a 4 |
| Conjunto | 33 bens inventariados pela SECULT — casas térreas e sobrados |
| Vistoriados pelo CREA-ES | 45 imóveis, em 21/07/2025 |
| Objeto do Acordo | 14 imóveis tombados de propriedade municipal |
| Construção do casario | 1840–1870 |
| Último restauro | 1999 |
| Rio | Cricaré (São Mateus) |
Fontes: Prefeitura Municipal de São Mateus (Guia Turístico), SECULT/ES, IPHAN, fichas cadastrais dos bens culturais imóveis (2008) e Relatório Técnico de Vistoria do CREA-ES (Protocolo nº 09535214). Dados históricos complementares registrados na ata da reunião de 01/07/2026. Para aprofundamento, ver LORDELLO, Eliane. O Porto de São Mateus ES: historicidade e atualidade, Minha Cidade, ano 18, n. 210.03, jan. 2018 — de autoria da arquiteta da Gerência de Memória e Patrimônio da SECULT/ES designada para atuar em São Mateus, cujo trabalho consta do Inquérito Civil.